Literaturas das Américas

Existe um aspecto da recepção da literatura latino-americana traduzida para o inglês que eu, pelo menos, nunca tinha parado muito pra pensar. Fala-se muito sobre a qualidade das traduções, como e quando as traduções começaram a acontecer, e então você para e considera por um minuto o seguinte: como essa literatura influenciou a dos Estados Unidos?

Já comentei aqui por cima que, durante os anos 1960, a literatura latino-americana traduzida passava por um “boom”; só da parte de editoras americanas e britânicas foram 330 traduções do espanhol (e 64 do português) entre 1960 e 1979¹. Essa explosão, claro, não saiu do nada; esses autores já existiam, a literatura já se desenvolvia há tempos, mas foi naquele momento que o interesse na literatura de línguas antes consideradas menos importantes encontrou ambiente propício – politicamente, economicamente, culturalmente…

A literatura latino-americana chegou aos Estados Unidos quando a própria literatura do país vivia maus bocados; “a literatura da exaustão”, como chamava o crítico John Barth, estava, nas palavras do críticos da época, estagnada, frustrada e em silêncio. Em contraste com o niilismo da literatura estadunidense das décadas de 50 e 60, chega a literatura nascida em meios aos regimes ditatoriais da América Latina.

Se por um lado essa literatura latino-americana, de modo geral, podia ser caracterizada também pela consciência de que a escrita pode ser um instrumento de mudança social, por outro nem tudo isso chegou ao leitor de língua inglesa. Mas o que chegou teve seu efeito: esse foi um momento marcado também por uma crítica que celebrava obras de escritores latino-americanos nos Estados Unidos, e que incentivava seus escritores a se inspirarem nesse trabalhos.

Uma combinação de motivos sociopolíticos e estéticos, portanto, contribuiu para essa recepção entusiasmada da literatura latino-americana – um conjunto de obras que antes era depreciado, desacreditado e ignorado, mas que, nos anos 1960, foi usado como fonte de inspiração, “uma força catalisadora, transformadora” para reavivar a literatura americana. (James Krause, “Latin American Literature in the United States”, p. 202).

Um dos exemplos dessa inspiração é o próprio Barth, profundamente influenciado por autores como Machado de Assis, Jorge Luis Borges e Gabriel García Márquez. Influenciado, no entanto, não pelas obras em português e espanhol em si, mas pelas traduções a que teve acesso e, necessariamente, pelo mercado editorial. Embora houvessem livrarias menores que investissem em difundir uma literatura ainda mais marginalizada, o que chegava da publicidade era uma definição de literatura latino-americana que, a bem da verdade, interessava mais ao mercado do que aos países latino-americanos em si. Autores como Cabrera Infante e Jorge Amado (uma exceção entre os brasileiros, tendo feito bastante sucesso na época) insistiam que o que existe na América Latina são, de fato, literaturas de cada país, com suas próprias particularidades.

Mais ou menos a partir dos anos 1980, com a emergência de um público leitor bilíngue, é a vez da Latino literature começar a ganhar visibilidade no mercado; essa é uma literatura em grande parte escrita em inglês, focada na experiência latina nos EUA, mais uma vez marcada por aspectos políticos e sociais. Apesar de (comercialmente) ser um fenômeno recente, existem registros mais antigos de literatura de exílio também considerados como Latino literature, ajudando a formar mais essa experiência intercontinental.

Harriet de Onís

Como começar a falar de Harriet de Onís? Talvez seja inevitável começar por onde eu a conheci: pela tradução de Guimarães Rosa para o inglês. A história de de Onís, no entanto, também passa pela história da tradução e recepção de literatura latino-americana entre as décadas de 1930 e 70, algo que eu vou precisar de mais algum tempo (e talvez vários outros posts) pra explicar. Felizmente esse é meu assunto favorito, então seremos felizes.

Harriet de Onís foi uma das mais influentes tradutoras do espanhol e português da editora Alfred A. Knopf, que foi responsável, em grande parte, pela difusão de clássicos da literatura latino-americana nos Estados Unidos. De Onís, nascida em Illinois e formada pelo Barnard College, era fluente em espanhol e especializada em literatura hispano-americana, e traduziu mais de 40 livros do espanhol e português para o inglês.

Atuando também como consultora da Knopf, de Onís “descobria novos talentos” para apresentar ao público dos EUA e tinha grande influência no que seria publicado ou não. Em uma antologia traduzida e editada por ela em 1948, chamada The Golden Land, de Onís incluiu trechos de textos de Euclides da Cunha, Affonso Arinos de Melo Franco, Gustavo Barroso, Monteiro Lobato, José Lins do Rego e Mário de Andrade. Mais tarde, traduziria também Gilberto Freyre, Jorge Amado e Guimarães Rosa.

A aproximação com Rosa aconteceu quando Harriet de Onís ficou encantada com o conto “A hora e a vez de Augusto Matraga”, que leu em espanhol (“La Oportunidad de Augusto Matraga”, trads. Juan Carlo Ghiano e Néstor Kraly). Apesar da dificuldade com o português, tratou de arranjar os livros de Rosa e começou uma correspondência com o autor em 1958. Eles trocaram cartas até 1967, ano da morte de Rosa. Harriet morreria dois anos depois.

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O período de atuação de Harriet de Onís como tradutora é o que se conhece geralmente como boom da literatura latino-americana nos Estados Unidos — latino-americana, mas não brasileira. Houve um aumento, sim, de obras em espanhol e português traduzidas e publicadas em inglês na época, mas apesar da crítica gringa geralmente colocar tudo no mesmo saco, as obras brasileiras só tiveram um aumento real de visibilidade e recepção depois dos anos 70.

Os motivos do boom não eram nada inocentes, é claro. Existia muita coisa acontecendo por essas bandas da América Latina que atraíam a atenção dos Estados Unidos; a famigerada ameaça comunista, a Revolução Cubana, ditaduras. Dos anos 1920 em diante, a elite intelectual estadunidense começou a se voltar para a literatura latina-americana, os departamentos de língua espanhola começaram a surgir nas universidades, o contato com a Outra América passava a existir na esperança de, quem sabe, poder controlar o que poderia se desenvolver aqui.

Muitas traduções iniciais de autores latino-americanos são fruto dessa geração; Rosa não escapou das influências que o período pode ter causado na sua tradução, mas foi um fracasso comercial nos EUA, então não chegou muito além dos círculos acadêmicos. Passados vários anos desde que vi a tradução de Grande Sertão: Veredas pela primeira vez, depois de ler a tradução de Sagarana e de conhecer os outros poucos tradutores de Rosa para o inglês, posso dizer que hoje em dia entendo de Onís melhor do que no começo; se antes eu achava a tradução muito nada a ver, hoje pelo menos entendo porque ela é do jeito que é.

De Onís e Rosa conversaram muito sobre a tradução e, eventualmente, sobre o processo de escrita. Através das suas cartas é possível entender muito do processo de Guimarães Rosa, o que ele realmente considerava importante passar para o leitor, como o que importava não era que uma palavra tivesse um significado igual de uma língua para outra, mas sim que fizesse o leitor pensar, que brincasse com o som, que fizesse uma diferença. Fatores para que a tradução não tenha saído do jeito que talvez nós esperamos que saísse hoje em dia existiram muitos; como introduzir um autor que quebra tantos padrões? Suavizar o estranhamento ou correr o risco de não ser entendido? Como explicar o sertão sem cair na armadilha do faroeste? Alguns desses fatores são mais fáceis de se contornar hoje em dia, outros nem tanto.

Teremos mais sobre a tradução de literatura latino-americana e brasileira (e sobre traduções mais recentes de Rosa) em um futuro próximo. Ou assim eu espero.

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“Seu, com a maior estima e apreço, a) J. Guimarães Rosa
Como terá notado, a tradução de ‘A Hora e a Vez de Augusto Matraga’, em FICCIONES, não ficou boa, está cheia de inexatidões.”

 

*as reproduções das cartas foram retiradas da dissertação “J. Guimarães Rosa – Correspondência inédita com a tradutora norte-americana Harriet de Onís”, de Iná Valéria Rodrigues Verlangieri (1993). 

O bichinho da tradução

photo5012649923526633547No primeiro dia do ano comecei a ler a longa viagem a um pequeno planeta hostil, um livro que comprei no comecinho do ano passado e passei os doze meses seguintes achando que ia ler logo. Nem li. Mas gosto de começar o ano lendo alguma coisa, então agora há esperança. Faz tempo que não paro pra ler ficção, então quis aproveitar: olhei as páginas iniciais direitinho (que livro bonito, por sinal), comecei a ler. Finalmente vou relaxar, esquecer o inglês por um momento, fazer outra coisa.

Não deu, não.

Passei tanto tempo enrolando pra fazer esse blog quanto pra ler esse livro. Queria que já fosse um site bem bonito, de gente grande, com duzentos posts já prontos pra sair e altas mídias sociais. Olha bem pra minha cara – não consigo executar esse nível de planejamento, desculpa. Mas eu queria muito escrever sobre tradução, porque, bem, é o que eu faço. Não só porque é o meu trabalho, ou porque eu preciso tagarelar um pouco sobre o que esteja fazendo às vezes, ou porque é o que eu estudo, embora todas as alternativas sejam verdadeiras. É porque tradução é aquele assunto que eu gosto tanto que quero que outras pessoas gostem também.

Eu estava lendo e percebendo como não dá pra desligar o bichinho da tradução. Deve ter um nome mais bonito pra isso, um termo técnico de processamento de leitura ou o que seja, mas pra mim o bichinho da tradução é aquela cisma de ficar lendo uma coisa em português e imaginar como era a frase em inglês ou vice-versa. Queria ter um cantinho pra fazer isso., comentar que eu fui ler um livro e lembrei do bichinho. Mais pra frente, quando tiver lido mais, talvez eu revisite um post antigo sobre tradução de ficção científica que me fez pensar um tempo atrás.

Pois bem, deixa eu me apresentar, caso alguém desembarque aqui sem me conhecer. Meu nome é Kamila, gosto muito de ficção científica, só fui gostar de anime depois de véia (é um caminho sem volta anyway) e minha formação anterior foi na área de TI. Nunca deixo de dizer isso porque foi onde a tradução começou, por incrível que pareça. E foi por ali também, cascaveando a biblioteca por literatura em vez de cálculo, que encontrei Guimarães Rosa. Com ele vieram todos os desdobramentos que me trouxeram até aqui, os segredos das palavras, a poesia na prosa, os mistérios da sua tradução, a literatura brasileira lá fora… Se ainda não estudei Rosa em outras línguas além do inglês, é porque infelizmente ainda não as aprendi, mas um dia dá certo; meu russo é fraco, mas tenta resistir, e tenho esperanças de começar francês esse ano.

Em julho serão sete anos de trabalho como tradutora e revisora freelance, me aventurando em textos técnicos, acadêmicos e agora, finalmente, literários. Traduzir um livro é uma aventura. É loucura também. Quero falar sobre isso, sobre Rosa e muitas outras coisas.

Vamos começar.