O bichinho da tradução

photo5012649923526633547No primeiro dia do ano comecei a ler a longa viagem a um pequeno planeta hostil, um livro que comprei no comecinho do ano passado e passei os doze meses seguintes achando que ia ler logo. Nem li. Mas gosto de começar o ano lendo alguma coisa, então agora há esperança. Faz tempo que não paro pra ler ficção, então quis aproveitar: olhei as páginas iniciais direitinho (que livro bonito, por sinal), comecei a ler. Finalmente vou relaxar, esquecer o inglês por um momento, fazer outra coisa.

Não deu, não.

Passei tanto tempo enrolando pra fazer esse blog quanto pra ler esse livro. Queria que já fosse um site bem bonito, de gente grande, com duzentos posts já prontos pra sair e altas mídias sociais. Olha bem pra minha cara – não consigo executar esse nível de planejamento, desculpa. Mas eu queria muito escrever sobre tradução, porque, bem, é o que eu faço. Não só porque é o meu trabalho, ou porque eu preciso tagarelar um pouco sobre o que esteja fazendo às vezes, ou porque é o que eu estudo, embora todas as alternativas sejam verdadeiras. É porque tradução é aquele assunto que eu gosto tanto que quero que outras pessoas gostem também.

Eu estava lendo e percebendo como não dá pra desligar o bichinho da tradução. Deve ter um nome mais bonito pra isso, um termo técnico de processamento de leitura ou o que seja, mas pra mim o bichinho da tradução é aquela cisma de ficar lendo uma coisa em português e imaginar como era a frase em inglês ou vice-versa. Queria ter um cantinho pra fazer isso., comentar que eu fui ler um livro e lembrei do bichinho. Mais pra frente, quando tiver lido mais, talvez eu revisite um post antigo sobre tradução de ficção científica que me fez pensar um tempo atrás.

Pois bem, deixa eu me apresentar, caso alguém desembarque aqui sem me conhecer. Meu nome é Kamila, gosto muito de ficção científica, só fui gostar de anime depois de véia (é um caminho sem volta anyway) e minha formação anterior foi na área de TI. Nunca deixo de dizer isso porque foi onde a tradução começou, por incrível que pareça. E foi por ali também, cascaveando a biblioteca por literatura em vez de cálculo, que encontrei Guimarães Rosa. Com ele vieram todos os desdobramentos que me trouxeram até aqui, os segredos das palavras, a poesia na prosa, os mistérios da sua tradução, a literatura brasileira lá fora… Se ainda não estudei Rosa em outras línguas além do inglês, é porque infelizmente ainda não as aprendi, mas um dia dá certo; meu russo é fraco, mas tenta resistir, e tenho esperanças de começar francês esse ano.

Em julho serão sete anos de trabalho como tradutora e revisora freelance, me aventurando em textos técnicos, acadêmicos e agora, finalmente, literários. Traduzir um livro é uma aventura. É loucura também. Quero falar sobre isso, sobre Rosa e muitas outras coisas.

Vamos começar.

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