Aspirações (ir)realizadas

(título descaradamente inspirado nesse aqui)

Não consigo pensar em dez autores específicos que gostaria de traduzir, mas consigo pensar nos tipos de obras com as quais gostaria de trabalhar. Aliás, até consigo reduzir o número de autores específicos para três.

É de se pensar que eu só trabalhe com inglês-português, e não vice-versa, mas eu pesquiso, respiro e vivo Guimarães Rosa e suas traduções. Queria pôr a mão na massa um dia e traduzir algo escrito por ele, um conto ou ensaio. Mas ainda preciso comer muito feijão com arroz pra começar a pensar em fazer isso (embora já tenha um conto em mente).

Semestre passado, por causa de Rosa e, mais especificamente, do contexto em que as traduções dele estavam inseridas (o boom latino-americano etc.), acabei pegando uma disciplina chamada Ficção Latino-americana na pós de Literatura Comparada, não de Tradução (desde então vivo com um pé lá o tempo todo). Foi nessa disciplina, que focou mais em literatura peruana — e onde tive que lembrar de todo o espanhol que já tinha esquecido — que eu conheci um escritor peruano chamado José María Arguedas. 

Acho que Arguedas merece um post só pra ele (duas palavras: hibridismo linguístico), mas por enquanto posso dizer ele me interessou o suficiente pra que eu queira ressuscitar meu espanhol a ponto de um dia ser capaz de traduzi-lo. Ele já tem traduções recentes, mas isso tem menos a ver com querer trazer o texto para o português e mais com entender como a tradução acontece fazendo você mesmo.

Já entrando no perigoso terreno da poesia, Richard Siken é um sonho antigo. Já traduzi um poema dele junto com minha orientadora na época, e a editora autorizou a publicação em periódico, mas os trâmites pra fazer algo além disso (ou seja, o livro todo) são outros quinhentos.

Eu diria que o que esses autores têm em comum (embora à primeira vista só Rosa e Arguedas se pareçam mais) é a importância da forma/som no texto. Rosa com suas estratégias (arcaísmos, neologismos, hibridismos, a própria prosa poética), Arguedas com a mistura entre espanhol e quéchua, Siken que, ainda que use uma linguagem contemporânea, é extremamente visual — os movimentos do poema lembram os movimentos de uma câmera.

Traduzir literatura, independente da teoria, ou se você considera como reescritura, equivalência ou o que seja, não é impossível, mas tem suas dificuldades. E foi só depois de começar a realmente me colocar nesse lugar que pude entender melhor meu próprio objeto de pesquisa. Por isso que digo que já não julgo tanto os tradutores de Rosa — é fácil dizer que uma tradução é ruim ou que algo está errado, mas é muito mais difícil entender o contexto em torno dela, as exigências do mercado, o que realmente foi o tradutor que fez ou não, entre outras coisas.

Espero conseguir voltar logo com mais detalhes sobre Arguedas, mas nesse meio-tempo aceito sugestões também. Quero escrever com mais frequência, e uma das minhas ambições é conseguir deixar esse blog bilíngue (dois problemas: preguiça e plugins chatos). Só digo que esse semestre peguei disciplinas sobre literatura cubana e polonesa, então sabe-se lá o que mais eu vou aprontar por aí.

Nas estrelas, sonhamos

Comecei o ano (e o blog) lendo A longa viagem a um pequeno planeta hostil, de Becky Chambers. Pessoa lenta e ocupada que sou, só terminei de ler o livro esses dias e só voltei a atualizar o blog agora. Pois é.

Pra unir o melhor de dois mundos, aproveitei que estava lendo o livro para fazer uma resenha da tradução para uma disciplina. Assim acabei também duplicando o trabalho, já que alternei a leitura com o livro em inglês, mas fui feliz.

IMG_20190620_230546991A longa viagem… é o livro de estreia de Becky Chambers, escritora estadunidense de ficção científica que conseguiu se autopublicar em 2014 com uma campanha no Kickstarters. Depois disso, The long way to a small, angry planet foi republicado pela editora Hodder & Stoughton. O livro faz parte da série Wayfarers, composta por três livros com finais fechados que podem ser lidos independentemente. No Brasil, A longa viagem… foi traduzido por Flora Pinheiro e publicado pela DarkSide Books em 2017.

Resumindo bem resumidinho, a história começa quando Rosemary Harper, uma humana, consegue o emprego de guarda-livros na nave perfuradora de túneis Andarilha. O título não é por acaso: essa uma história sobre uma longa, longa viagem. Não que o seu destino final não seja importante, mas ele depende de tudo o que acontece desde o início. A longa viagem… é uma história sobre comunicação, convivência, culturas diferentes, o tipo de narrativa que é um alívio em um gênero que às vezes pode ser tão árido.

Nesse post para o blog da Intrínseca, a tradutora Flora Pinheiro comenta alguns aspectos da edição de livros de fantasia, como a atenção com os detalhes que devem ser consistentes ao longo da série. A escritora Fonda Lee, nessa thread do Twitter (em inglês), também chegou a um questionamento interessante: como usar termos já consagrados – que usamos até sem perceber – em um mundo secundário em que esses termos nem deveriam existir?

De qualquer forma, minha regra pessoal nesse tipo de situação é: invente o mínimo possível de palavras e nunca deixe o leitor parar para pensar ou questionar sua escolha de palavras. Então, sim, eu vou usar “envelope manila” e “champagne”, mas não “xerox” ou “tupperware”.

Becky Chambers amarra muito bem todos os aspectos da história, inclusive esse: ela não precisa parar a narrativa de tempos em tempos para explicar todos os detalhes do universo que inventou, porque, na maioria das vezes, o contexto é o suficiente para deduzir do que se tratam.

Bastante já foi dito sobre esse livro internet afora de 2015 pra cá, e já passei algumas semanas escrevendo mais detalhadamente sobre ele, então não vou me alongar muito mais, mas enquanto pesquisava vi que inúmeras outras resenhas chegaram a mesma conclusão: A longa viagem a um pequeno planeta hostil é um livro incrivelmente… humano. Chega a ser irônico, em um universo tão vasto e diverso, o quanto a humanidade não consegue escapar de si mesma.

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Parágrafos sombrios à parte, planejo ler o segundo volume dessa trilogia mês que vem. Bem, pelo menos começar, se formos sinceros com o meu ritmo de leitura. A vida compartilhada em uma admirável órbita fechada (A Close and Common Orbit, 2016), também traduzido por Flora Pinheiro, continua a história de personagens que fizeram parte do primeiro livro, mas pode ser lido independentemente. O terceiro livro da série, Record of a Spaceborn Few, ainda não saiu em português. O lançamento mais recente de Becky Chambers, To be taught, if fortunate, também já está em pré-venda. Espero que todos cheguem aqui em breve, com a edição cuidadosa que a Darkside tem dedicado à autora.

Becky Chambers também pode ser encontrada no seu site, Other Scribbles.

 

Literaturas das Américas

Existe um aspecto da recepção da literatura latino-americana traduzida para o inglês que eu, pelo menos, nunca tinha parado muito pra pensar. Fala-se muito sobre a qualidade das traduções, como e quando as traduções começaram a acontecer, e então você para e considera por um minuto o seguinte: como essa literatura influenciou a dos Estados Unidos?

Já comentei aqui por cima que, durante os anos 1960, a literatura latino-americana traduzida passava por um “boom”; só da parte de editoras americanas e britânicas foram 330 traduções do espanhol (e 64 do português) entre 1960 e 1979¹. Essa explosão, claro, não saiu do nada; esses autores já existiam, a literatura já se desenvolvia há tempos, mas foi naquele momento que o interesse na literatura de línguas antes consideradas menos importantes encontrou ambiente propício – politicamente, economicamente, culturalmente…

A literatura latino-americana chegou aos Estados Unidos quando a própria literatura do país vivia maus bocados; “a literatura da exaustão”, como chamava o crítico John Barth, estava, nas palavras do críticos da época, estagnada, frustrada e em silêncio. Em contraste com o niilismo da literatura estadunidense das décadas de 50 e 60, chega a literatura nascida em meios aos regimes ditatoriais da América Latina.

Se por um lado essa literatura latino-americana, de modo geral, podia ser caracterizada também pela consciência de que a escrita pode ser um instrumento de mudança social, por outro nem tudo isso chegou ao leitor de língua inglesa. Mas o que chegou teve seu efeito: esse foi um momento marcado também por uma crítica que celebrava obras de escritores latino-americanos nos Estados Unidos, e que incentivava seus escritores a se inspirarem nesse trabalhos.

Uma combinação de motivos sociopolíticos e estéticos, portanto, contribuiu para essa recepção entusiasmada da literatura latino-americana – um conjunto de obras que antes era depreciado, desacreditado e ignorado, mas que, nos anos 1960, foi usado como fonte de inspiração, “uma força catalisadora, transformadora” para reavivar a literatura americana. (James Krause, “Latin American Literature in the United States”, p. 202).

Um dos exemplos dessa inspiração é o próprio Barth, profundamente influenciado por autores como Machado de Assis, Jorge Luis Borges e Gabriel García Márquez. Influenciado, no entanto, não pelas obras em português e espanhol em si, mas pelas traduções a que teve acesso e, necessariamente, pelo mercado editorial. Embora houvessem livrarias menores que investissem em difundir uma literatura ainda mais marginalizada, o que chegava da publicidade era uma definição de literatura latino-americana que, a bem da verdade, interessava mais ao mercado do que aos países latino-americanos em si. Autores como Cabrera Infante e Jorge Amado (uma exceção entre os brasileiros, tendo feito bastante sucesso na época) insistiam que o que existe na América Latina são, de fato, literaturas de cada país, com suas próprias particularidades.

Mais ou menos a partir dos anos 1980, com a emergência de um público leitor bilíngue, é a vez da Latino literature começar a ganhar visibilidade no mercado; essa é uma literatura em grande parte escrita em inglês, focada na experiência latina nos EUA, mais uma vez marcada por aspectos políticos e sociais. Apesar de (comercialmente) ser um fenômeno recente, existem registros mais antigos de literatura de exílio também considerados como Latino literature, ajudando a formar mais essa experiência intercontinental.