Acervo Guimarães Rosa

Da última vez que estive por aqui eu disse que tiraria um momento pra falar de algumas Coisas Legais que aconteceram ano passado, e o momento é esse. Senta que lá vem Guimarães Rosa (de novo, o tempo todo, pra sempre).

Passei cinco dias em São Paulo em novembro. Tirando o rombo no orçamento (por que comer nessa cidade é tão caro meu deus), as horas de molho no aeroporto e a descoberta de que cadeira de avião é um negócio super desconfortável, foi sucesso. Os objetivos, na verdade, eram dois: visitar o Acervo Guimarães Rosa e apresentar um trabalho na III JOTA, um evento de tradução organizado pelo laboratório GREAT, da USP. 

O Acervo fica no Instituto de Estudos Brasileiros da USP, e é composto da biblioteca de Rosa, com 3.500 volumes, e do arquivo documental (cadernos de anotações, livros inacabados, fotos, cartas etc.). Infelizmente não pude passar muito tempo lá, tanto por causa do evento quanto porque o acervo só fica aberto até as 13h, mas aproveitei cada minuto que passei ali. 

É uma fonte incrível de pesquisa, só fico triste por estar tão longe. O acesso é muito simples e só é preciso ter o cuidado adequado com os documentos e pronto, lá está você de frente para as cartas trocadas com os tradutores, versões e mais versões de contos datilografados, anotações nas bordas, as próprias traduções, críticas reunidas de jornais estrangeiros, e essas são só as coisas que eu fui atrás, mas existem muito mais. E também existe muito material que não está lá e/ou ainda não teve autorização da família para ser reproduzido.

Existe um certo perigo, por assim dizer, de se envolver demais com o objeto de pesquisa, ou admirar tanto que você só consegue elogiar (ou até criticar), sem conseguir ser parcial. Eu diria que Rosa tem um alto nível de periculosidade; se ver de frente para os datiloscritos, das anotações e cartas, é muito emocionante, mas focar apenas no que há de poético e genial nos textos pode ofuscar o fato de que se eles são assim, é porque teve um trabalho muito específico em cima disso, e não porque a inspiração caiu do céu. Rosa era muito detalhista, anotava tudo, expressões e palavras que viriam a aparecer em algum conto um dia, e exigia muito também – de si mesmo e dos outros. A magia é poder ver todos os ângulos, ou pelo menos todos os possíveis.

Quem me conhece sabe que posso passar horas reclamando de São Paulo, mas gostei muito da viagem. Claro que não dá pra conhecer tudo em cinco dias, ainda mais com uma agenda tendo que passar a maior parte do tempo na USP, então gostaria muito de voltar uma vez por ano, se fosse possível. Não sei se vai ser possível ainda antes do fim do mestrado, mas que vai que né.

Em um futuro próximo, hopefully: mais sobre crítica de Guimarães Rosa nos EUA, a importância da autoria na tradução, e por que estudar o que a gringaiada fala sobre nossos autores (não necessariamente tudo ao mesmo tempo agora).

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Aspirações (ir)realizadas

(título descaradamente inspirado nesse aqui)

Não consigo pensar em dez autores específicos que gostaria de traduzir, mas consigo pensar nos tipos de obras com as quais gostaria de trabalhar. Aliás, até consigo reduzir o número de autores específicos para três.

É de se pensar que eu só trabalhe com inglês-português, e não vice-versa, mas eu pesquiso, respiro e vivo Guimarães Rosa e suas traduções. Queria pôr a mão na massa um dia e traduzir algo escrito por ele, um conto ou ensaio. Mas ainda preciso comer muito feijão com arroz pra começar a pensar em fazer isso (embora já tenha um conto em mente).

Semestre passado, por causa de Rosa e, mais especificamente, do contexto em que as traduções dele estavam inseridas (o boom latino-americano etc.), acabei pegando uma disciplina chamada Ficção Latino-americana na pós de Literatura Comparada, não de Tradução (desde então vivo com um pé lá o tempo todo). Foi nessa disciplina, que focou mais em literatura peruana — e onde tive que lembrar de todo o espanhol que já tinha esquecido — que eu conheci um escritor peruano chamado José María Arguedas. 

Acho que Arguedas merece um post só pra ele (duas palavras: hibridismo linguístico), mas por enquanto posso dizer ele me interessou o suficiente pra que eu queira ressuscitar meu espanhol a ponto de um dia ser capaz de traduzi-lo. Ele já tem traduções recentes, mas isso tem menos a ver com querer trazer o texto para o português e mais com entender como a tradução acontece fazendo você mesmo.

Já entrando no perigoso terreno da poesia, Richard Siken é um sonho antigo. Já traduzi um poema dele junto com minha orientadora na época, e a editora autorizou a publicação em periódico, mas os trâmites pra fazer algo além disso (ou seja, o livro todo) são outros quinhentos.

Eu diria que o que esses autores têm em comum (embora à primeira vista só Rosa e Arguedas se pareçam mais) é a importância da forma/som no texto. Rosa com suas estratégias (arcaísmos, neologismos, hibridismos, a própria prosa poética), Arguedas com a mistura entre espanhol e quéchua, Siken que, ainda que use uma linguagem contemporânea, é extremamente visual — os movimentos do poema lembram os movimentos de uma câmera.

Traduzir literatura, independente da teoria, ou se você considera como reescritura, equivalência ou o que seja, não é impossível, mas tem suas dificuldades. E foi só depois de começar a realmente me colocar nesse lugar que pude entender melhor meu próprio objeto de pesquisa. Por isso que digo que já não julgo tanto os tradutores de Rosa — é fácil dizer que uma tradução é ruim ou que algo está errado, mas é muito mais difícil entender o contexto em torno dela, as exigências do mercado, o que realmente foi o tradutor que fez ou não, entre outras coisas.

Espero conseguir voltar logo com mais detalhes sobre Arguedas, mas nesse meio-tempo aceito sugestões também. Quero escrever com mais frequência, e uma das minhas ambições é conseguir deixar esse blog bilíngue (dois problemas: preguiça e plugins chatos). Só digo que esse semestre peguei disciplinas sobre literatura cubana e polonesa, então sabe-se lá o que mais eu vou aprontar por aí.

Harriet de Onís

Como começar a falar de Harriet de Onís? Talvez seja inevitável começar por onde eu a conheci: pela tradução de Guimarães Rosa para o inglês. A história de de Onís, no entanto, também passa pela história da tradução e recepção de literatura latino-americana entre as décadas de 1930 e 70, algo que eu vou precisar de mais algum tempo (e talvez vários outros posts) pra explicar. Felizmente esse é meu assunto favorito, então seremos felizes.

Harriet de Onís foi uma das mais influentes tradutoras do espanhol e português da editora Alfred A. Knopf, que foi responsável, em grande parte, pela difusão de clássicos da literatura latino-americana nos Estados Unidos. De Onís, nascida em Illinois e formada pelo Barnard College, era fluente em espanhol e especializada em literatura hispano-americana, e traduziu mais de 40 livros do espanhol e português para o inglês.

Atuando também como consultora da Knopf, de Onís “descobria novos talentos” para apresentar ao público dos EUA e tinha grande influência no que seria publicado ou não. Em uma antologia traduzida e editada por ela em 1948, chamada The Golden Land, de Onís incluiu trechos de textos de Euclides da Cunha, Affonso Arinos de Melo Franco, Gustavo Barroso, Monteiro Lobato, José Lins do Rego e Mário de Andrade. Mais tarde, traduziria também Gilberto Freyre, Jorge Amado e Guimarães Rosa.

A aproximação com Rosa aconteceu quando Harriet de Onís ficou encantada com o conto “A hora e a vez de Augusto Matraga”, que leu em espanhol (“La Oportunidad de Augusto Matraga”, trads. Juan Carlo Ghiano e Néstor Kraly). Apesar da dificuldade com o português, tratou de arranjar os livros de Rosa e começou uma correspondência com o autor em 1958. Eles trocaram cartas até 1967, ano da morte de Rosa. Harriet morreria dois anos depois.

01

O período de atuação de Harriet de Onís como tradutora é o que se conhece geralmente como boom da literatura latino-americana nos Estados Unidos — latino-americana, mas não brasileira. Houve um aumento, sim, de obras em espanhol e português traduzidas e publicadas em inglês na época, mas apesar da crítica gringa geralmente colocar tudo no mesmo saco, as obras brasileiras só tiveram um aumento real de visibilidade e recepção depois dos anos 70.

Os motivos do boom não eram nada inocentes, é claro. Existia muita coisa acontecendo por essas bandas da América Latina que atraíam a atenção dos Estados Unidos; a famigerada ameaça comunista, a Revolução Cubana, ditaduras. Dos anos 1920 em diante, a elite intelectual estadunidense começou a se voltar para a literatura latina-americana, os departamentos de língua espanhola começaram a surgir nas universidades, o contato com a Outra América passava a existir na esperança de, quem sabe, poder controlar o que poderia se desenvolver aqui.

Muitas traduções iniciais de autores latino-americanos são fruto dessa geração; Rosa não escapou das influências que o período pode ter causado na sua tradução, mas foi um fracasso comercial nos EUA, então não chegou muito além dos círculos acadêmicos. Passados vários anos desde que vi a tradução de Grande Sertão: Veredas pela primeira vez, depois de ler a tradução de Sagarana e de conhecer os outros poucos tradutores de Rosa para o inglês, posso dizer que hoje em dia entendo de Onís melhor do que no começo; se antes eu achava a tradução muito nada a ver, hoje pelo menos entendo porque ela é do jeito que é.

De Onís e Rosa conversaram muito sobre a tradução e, eventualmente, sobre o processo de escrita. Através das suas cartas é possível entender muito do processo de Guimarães Rosa, o que ele realmente considerava importante passar para o leitor, como o que importava não era que uma palavra tivesse um significado igual de uma língua para outra, mas sim que fizesse o leitor pensar, que brincasse com o som, que fizesse uma diferença. Fatores para que a tradução não tenha saído do jeito que talvez nós esperamos que saísse hoje em dia existiram muitos; como introduzir um autor que quebra tantos padrões? Suavizar o estranhamento ou correr o risco de não ser entendido? Como explicar o sertão sem cair na armadilha do faroeste? Alguns desses fatores são mais fáceis de se contornar hoje em dia, outros nem tanto.

Teremos mais sobre a tradução de literatura latino-americana e brasileira (e sobre traduções mais recentes de Rosa) em um futuro próximo. Ou assim eu espero.

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“Seu, com a maior estima e apreço, a) J. Guimarães Rosa
Como terá notado, a tradução de ‘A Hora e a Vez de Augusto Matraga’, em FICCIONES, não ficou boa, está cheia de inexatidões.”

 

*as reproduções das cartas foram retiradas da dissertação “J. Guimarães Rosa – Correspondência inédita com a tradutora norte-americana Harriet de Onís”, de Iná Valéria Rodrigues Verlangieri (1993).