Mais algumas aventuras pela tradução de poesia

Sobre a newsletter:

Na semana passada, decidi “transformar” o blog em uma newsletter (que você pode assinar aqui); assim entre aspas porque não muda nada na prática, só adiciona uma opção de receber o post sentadinho no conforto do seu lar, sem ter que ficar entrando num site pra ler as coisas. Eu eventualmente vou ter que me conformar que a era dos blogs acabou, mas é isto.

Hoje quero falar um pouquinho – só um pouquinho mesmo, senão me alongo demais – sobre dois poemas que andei traduzindo ultimamente. Nenhum deles foi publicado ainda, mas, se um dia forem, dou um alô.


,,Huyamos, caro hermano,
Partamos por el viento;
Por siempre abandonemos
Nuestro enemigo suelo.”

Em meio a outras tantas aventuras do ano passado – que acho que merecem seu próprio momento – me meti em um seminário sobre literatura cubana e saí de lá incumbida da tradução de um poema. Meu espanhol tropeça, às vezes cai, e levei muito mais tempo do que acho que teria levado, talvez, com o inglês, mas a tradução saiu. Ainda não viu a luz do sol, talvez um dia verá, mas foi uma experiência interessante.

hedra-capa-miniPrimeiro por causa do autor. Trata-se de Juan Francisco Manzano (1797-1853), talvez mais conhecido aqui em português pela sua Autobiografia do poeta-escravo, que foi traduzida em 2015. La autobiografia de Manzano, escrita em troca da sua liberdade, é o único relato conhecido de uma pessoa escravizada na América Latina. Mas Manzano não escreveu somente isso, e sua obra também é considerada a gênese da literatura cubana, em especial o romance abolicionista.

Talvez o mais difícil nessa tradução tenha sido o quão próximo o espanhol parece ser do português. “Parece” porque, apesar das obviedades, existem aspectos do poema que precisam ser mantidos para que façam sentido à dupla interpretação que pode ser feita da poesia de Manzano – uma voz para o leitor branco, que poderia ser uma ameaça, e uma para a comunidade escravizada -, como as referências aos quilombos cubanos (palenques) e suas localizações. No fim das contas, o risco tomado foi manter o poema o mais próximo possível do espanhol, mantendo a estrutura dos versos originais, mas deixando de lado as rimas.


Difficult, to be confronted with the fact of yourself.

Andei revisitando Richard Siken esses dias. Ainda não tinha terminado de ler War of the foxes, talvez em parte porque, na época, Crush ainda fazia mais sentido pra mim, mas também porque, sejamos honestos, eu meio que perdi o livro no meio das minhas bagunças. Que se há de fazer.

51qAZy-xFtL._SY445_QL70_ML2_Com o livro devidamente reencontrado e lido, escolhi outro poema pra traduzir. E prontamente enlouquecer, porque tinha esquecido que traduzir Siken é uma tarefa que me deixa ligeiramente obcecada com uma perfeição inatingível. Os poemas de War of the foxes falam das impossibilidades da arte, suas ferramentas, essencialmente através de descrições de pinturas ou do ato de pintar. Como Siken disse em entrevista uma vez, “Quando terminei Crush, eu ainda não sabia o que fazer com as minhas mãos. Fiquei pensando nisso. Em Crush, no poema ‘Unfinished Duet’, mãos se tornam pássaros e saem voando, e a última linha diz que ‘Eventualmente os pássaros têm que pousar’. Em War of the Foxes, os pássaros pousam em todo lugar”.

Não terminei a revisão ainda, mas a maior dificuldade até então são aqueles pequenos detalhes que deixam qualquer um puxando os cabelos; um verso que fica longo demais e desestabiliza a estrutura de todos os outros, acertar o tom – não é porque a poesia é contemporânea que a linguagem é bolinho -, uma bendita expressão que ainda não achei correspondência, e assim vai. Um dia ele sai do forno.


O que eu disse que queria deixar pra um outro momento é a visita ao Arquivo Guimarães Rosa, em São Paulo, que finalmente consegui fazer em novembro do ano passado. Foi lindo, foi mágico, ainda tô pagando, mas valeu muito a pena. Fica aí como pauta para a próxima vez.

Nas estrelas, sonhamos

Comecei o ano (e o blog) lendo A longa viagem a um pequeno planeta hostil, de Becky Chambers. Pessoa lenta e ocupada que sou, só terminei de ler o livro esses dias e só voltei a atualizar o blog agora. Pois é.

Pra unir o melhor de dois mundos, aproveitei que estava lendo o livro para fazer uma resenha da tradução para uma disciplina. Assim acabei também duplicando o trabalho, já que alternei a leitura com o livro em inglês, mas fui feliz.

IMG_20190620_230546991A longa viagem… é o livro de estreia de Becky Chambers, escritora estadunidense de ficção científica que conseguiu se autopublicar em 2014 com uma campanha no Kickstarters. Depois disso, The long way to a small, angry planet foi republicado pela editora Hodder & Stoughton. O livro faz parte da série Wayfarers, composta por três livros com finais fechados que podem ser lidos independentemente. No Brasil, A longa viagem… foi traduzido por Flora Pinheiro e publicado pela DarkSide Books em 2017.

Resumindo bem resumidinho, a história começa quando Rosemary Harper, uma humana, consegue o emprego de guarda-livros na nave perfuradora de túneis Andarilha. O título não é por acaso: essa uma história sobre uma longa, longa viagem. Não que o seu destino final não seja importante, mas ele depende de tudo o que acontece desde o início. A longa viagem… é uma história sobre comunicação, convivência, culturas diferentes, o tipo de narrativa que é um alívio em um gênero que às vezes pode ser tão árido.

Nesse post para o blog da Intrínseca, a tradutora Flora Pinheiro comenta alguns aspectos da edição de livros de fantasia, como a atenção com os detalhes que devem ser consistentes ao longo da série. A escritora Fonda Lee, nessa thread do Twitter (em inglês), também chegou a um questionamento interessante: como usar termos já consagrados – que usamos até sem perceber – em um mundo secundário em que esses termos nem deveriam existir?

De qualquer forma, minha regra pessoal nesse tipo de situação é: invente o mínimo possível de palavras e nunca deixe o leitor parar para pensar ou questionar sua escolha de palavras. Então, sim, eu vou usar “envelope manila” e “champagne”, mas não “xerox” ou “tupperware”.

Becky Chambers amarra muito bem todos os aspectos da história, inclusive esse: ela não precisa parar a narrativa de tempos em tempos para explicar todos os detalhes do universo que inventou, porque, na maioria das vezes, o contexto é o suficiente para deduzir do que se tratam.

Bastante já foi dito sobre esse livro internet afora de 2015 pra cá, e já passei algumas semanas escrevendo mais detalhadamente sobre ele, então não vou me alongar muito mais, mas enquanto pesquisava vi que inúmeras outras resenhas chegaram a mesma conclusão: A longa viagem a um pequeno planeta hostil é um livro incrivelmente… humano. Chega a ser irônico, em um universo tão vasto e diverso, o quanto a humanidade não consegue escapar de si mesma.

51LC0oOpuZL

Parágrafos sombrios à parte, planejo ler o segundo volume dessa trilogia mês que vem. Bem, pelo menos começar, se formos sinceros com o meu ritmo de leitura. A vida compartilhada em uma admirável órbita fechada (A Close and Common Orbit, 2016), também traduzido por Flora Pinheiro, continua a história de personagens que fizeram parte do primeiro livro, mas pode ser lido independentemente. O terceiro livro da série, Record of a Spaceborn Few, ainda não saiu em português. O lançamento mais recente de Becky Chambers, To be taught, if fortunate, também já está em pré-venda. Espero que todos cheguem aqui em breve, com a edição cuidadosa que a Darkside tem dedicado à autora.

Becky Chambers também pode ser encontrada no seu site, Other Scribbles.

 

Literaturas das Américas

Existe um aspecto da recepção da literatura latino-americana traduzida para o inglês que eu, pelo menos, nunca tinha parado muito pra pensar. Fala-se muito sobre a qualidade das traduções, como e quando as traduções começaram a acontecer, e então você para e considera por um minuto o seguinte: como essa literatura influenciou a dos Estados Unidos?

Já comentei aqui por cima que, durante os anos 1960, a literatura latino-americana traduzida passava por um “boom”; só da parte de editoras americanas e britânicas foram 330 traduções do espanhol (e 64 do português) entre 1960 e 1979¹. Essa explosão, claro, não saiu do nada; esses autores já existiam, a literatura já se desenvolvia há tempos, mas foi naquele momento que o interesse na literatura de línguas antes consideradas menos importantes encontrou ambiente propício – politicamente, economicamente, culturalmente…

A literatura latino-americana chegou aos Estados Unidos quando a própria literatura do país vivia maus bocados; “a literatura da exaustão”, como chamava o crítico John Barth, estava, nas palavras do críticos da época, estagnada, frustrada e em silêncio. Em contraste com o niilismo da literatura estadunidense das décadas de 50 e 60, chega a literatura nascida em meios aos regimes ditatoriais da América Latina.

Se por um lado essa literatura latino-americana, de modo geral, podia ser caracterizada também pela consciência de que a escrita pode ser um instrumento de mudança social, por outro nem tudo isso chegou ao leitor de língua inglesa. Mas o que chegou teve seu efeito: esse foi um momento marcado também por uma crítica que celebrava obras de escritores latino-americanos nos Estados Unidos, e que incentivava seus escritores a se inspirarem nesse trabalhos.

Uma combinação de motivos sociopolíticos e estéticos, portanto, contribuiu para essa recepção entusiasmada da literatura latino-americana – um conjunto de obras que antes era depreciado, desacreditado e ignorado, mas que, nos anos 1960, foi usado como fonte de inspiração, “uma força catalisadora, transformadora” para reavivar a literatura americana. (James Krause, “Latin American Literature in the United States”, p. 202).

Um dos exemplos dessa inspiração é o próprio Barth, profundamente influenciado por autores como Machado de Assis, Jorge Luis Borges e Gabriel García Márquez. Influenciado, no entanto, não pelas obras em português e espanhol em si, mas pelas traduções a que teve acesso e, necessariamente, pelo mercado editorial. Embora houvessem livrarias menores que investissem em difundir uma literatura ainda mais marginalizada, o que chegava da publicidade era uma definição de literatura latino-americana que, a bem da verdade, interessava mais ao mercado do que aos países latino-americanos em si. Autores como Cabrera Infante e Jorge Amado (uma exceção entre os brasileiros, tendo feito bastante sucesso na época) insistiam que o que existe na América Latina são, de fato, literaturas de cada país, com suas próprias particularidades.

Mais ou menos a partir dos anos 1980, com a emergência de um público leitor bilíngue, é a vez da Latino literature começar a ganhar visibilidade no mercado; essa é uma literatura em grande parte escrita em inglês, focada na experiência latina nos EUA, mais uma vez marcada por aspectos políticos e sociais. Apesar de (comercialmente) ser um fenômeno recente, existem registros mais antigos de literatura de exílio também considerados como Latino literature, ajudando a formar mais essa experiência intercontinental.