Harriet de Onís

Como começar a falar de Harriet de Onís? Talvez seja inevitável começar por onde eu a conheci: pela tradução de Guimarães Rosa para o inglês. A história de de Onís, no entanto, também passa pela história da tradução e recepção de literatura latino-americana entre as décadas de 1930 e 70, algo que eu vou precisar de mais algum tempo (e talvez vários outros posts) pra explicar. Felizmente esse é meu assunto favorito, então seremos felizes.

Harriet de Onís foi uma das mais influentes tradutoras do espanhol e português da editora Alfred A. Knopf, que foi responsável, em grande parte, pela difusão de clássicos da literatura latino-americana nos Estados Unidos. De Onís, nascida em Illinois e formada pelo Barnard College, era fluente em espanhol e especializada em literatura hispano-americana, e traduziu mais de 40 livros do espanhol e português para o inglês.

Atuando também como consultora da Knopf, de Onís “descobria novos talentos” para apresentar ao público dos EUA e tinha grande influência no que seria publicado ou não. Em uma antologia traduzida e editada por ela em 1948, chamada The Golden Land, de Onís incluiu trechos de textos de Euclides da Cunha, Affonso Arinos de Melo Franco, Gustavo Barroso, Monteiro Lobato, José Lins do Rego e Mário de Andrade. Mais tarde, traduziria também Gilberto Freyre, Jorge Amado e Guimarães Rosa.

A aproximação com Rosa aconteceu quando Harriet de Onís ficou encantada com o conto “A hora e a vez de Augusto Matraga”, que leu em espanhol (“La Oportunidad de Augusto Matraga”, trads. Juan Carlo Ghiano e Néstor Kraly). Apesar da dificuldade com o português, tratou de arranjar os livros de Rosa e começou uma correspondência com o autor em 1958. Eles trocaram cartas até 1967, ano da morte de Rosa. Harriet morreria dois anos depois.

01

O período de atuação de Harriet de Onís como tradutora é o que se conhece geralmente como boom da literatura latino-americana nos Estados Unidos — latino-americana, mas não brasileira. Houve um aumento, sim, de obras em espanhol e português traduzidas e publicadas em inglês na época, mas apesar da crítica gringa geralmente colocar tudo no mesmo saco, as obras brasileiras só tiveram um aumento real de visibilidade e recepção depois dos anos 70.

Os motivos do boom não eram nada inocentes, é claro. Existia muita coisa acontecendo por essas bandas da América Latina que atraíam a atenção dos Estados Unidos; a famigerada ameaça comunista, a Revolução Cubana, ditaduras. Dos anos 1920 em diante, a elite intelectual estadunidense começou a se voltar para a literatura latina-americana, os departamentos de língua espanhola começaram a surgir nas universidades, o contato com a Outra América passava a existir na esperança de, quem sabe, poder controlar o que poderia se desenvolver aqui.

Muitas traduções iniciais de autores latino-americanos são fruto dessa geração; Rosa não escapou das influências que o período pode ter causado na sua tradução, mas foi um fracasso comercial nos EUA, então não chegou muito além dos círculos acadêmicos. Passados vários anos desde que vi a tradução de Grande Sertão: Veredas pela primeira vez, depois de ler a tradução de Sagarana e de conhecer os outros poucos tradutores de Rosa para o inglês, posso dizer que hoje em dia entendo de Onís melhor do que no começo; se antes eu achava a tradução muito nada a ver, hoje pelo menos entendo porque ela é do jeito que é.

De Onís e Rosa conversaram muito sobre a tradução e, eventualmente, sobre o processo de escrita. Através das suas cartas é possível entender muito do processo de Guimarães Rosa, o que ele realmente considerava importante passar para o leitor, como o que importava não era que uma palavra tivesse um significado igual de uma língua para outra, mas sim que fizesse o leitor pensar, que brincasse com o som, que fizesse uma diferença. Fatores para que a tradução não tenha saído do jeito que talvez nós esperamos que saísse hoje em dia existiram muitos; como introduzir um autor que quebra tantos padrões? Suavizar o estranhamento ou correr o risco de não ser entendido? Como explicar o sertão sem cair na armadilha do faroeste? Alguns desses fatores são mais fáceis de se contornar hoje em dia, outros nem tanto.

Teremos mais sobre a tradução de literatura latino-americana e brasileira (e sobre traduções mais recentes de Rosa) em um futuro próximo. Ou assim eu espero.

02
“Seu, com a maior estima e apreço, a) J. Guimarães Rosa
Como terá notado, a tradução de ‘A Hora e a Vez de Augusto Matraga’, em FICCIONES, não ficou boa, está cheia de inexatidões.”

 

*as reproduções das cartas foram retiradas da dissertação “J. Guimarães Rosa – Correspondência inédita com a tradutora norte-americana Harriet de Onís”, de Iná Valéria Rodrigues Verlangieri (1993).